à morte com carinho

18 jan

Local: Hotel Paris

Cheiro no ar: citronela

O assassino fechou a porta, estavam enfim sozinhos. Nenhum dos dois preocupou-se com o quarto. Abraçaram-se.

A corista o beijou na boca, com língua, saliva e um pouquinho de gim. Ele adorou e para sua surpresa, quis mais e muitos, quantos pudesse ter. Pensou em desabotoar o vestido, mas antes abraçou-a com força e teve medo. Chegou a apoiar a cabeça no ombro da corista que lhe acariciou os cabelos devagar.

Ela o beijou mais uma vez: sua língua macia e molhada.

O assassino respirou fundo e lentamente.

Você sabe fingir de morta? Eu preciso que você morra. Consegue fazer isso? Consigo, ela não hesitou. Mas consegue fingir de verdade?, ele insistiu. E se eu não conseguir? Aí, eu vou ter que matar você. Fez-se um pequeno silêncio…. E se eu conseguir? O assassino não respondeu, mas sorriu e ela…sorriu de volta, seu sorriso mais bonito, ele achou.

E a corista que sempre sonhou em ser um atriz de verdade, com verdade morreu, nos braços do assassino. Ao amante da morte coube amá-la, mais vivo do que nunca. Afinal, ninguém morrera pra ele antes, com tanta boa vontade.

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A Lua

13 jan
Local: Morro do Pasmado
Cheiro no ar: feijão requentado
Coisa impossível acontece e sempre vai acontecer. Se não, como foi então que nosso planeta apareceu? Existe coisa mais impossível que esse tal de “big bang”?? Minha professora falou disso hoje na escola. Mandou até a gente fazer um desenho. Eu fiz. Desenho não é só pra filho de bacana, não. Cansei de fazer muito desenho por aí. Eu usava o lápis de cor dos colegas, mas minha mãe me deu uma caixa no natal, com seis cores! Aí, eu fiz a lua. Uma porção de vezes…

Toda noite, depois da janta, eu abro a janela e olho pra ela. A lua! Nem sempre dá pra vê, mas quando dá eu vejo. Sempre. Fico olhando, olho tanto que fica cheia de vergonha. Um dia ela não se aguenta. Aí ela larga o papo com as amigas estrelinhas e se joga no mar. Fica lá, bem no fundo, escondida.

O que acontece se a lua cair no mar? Acho que vou perguntar pra minha professora. E se ela se zangar comigo? Mas se eu não perguntar, eu nunca vou saber. Pinoias!

Bom, por enquanto, vou deixar a lua em paz e dormir. Tenho que acordar muito cedo amanhã. Minha mãe é faxineira lá na escola. A gente chega antes que todo mundo. Tomara que a minha professora chegue cedo também. Aí eu tomo coragem e pergunto logo. Queria que já fosse amanhã.

É… Acho que tô começando a gostar de ciências.

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desenterro

20 nov

Local: Cemitério do Cajú

Cheiro no ar: rosas brancas

Chega atrasada, encara a família.  Passa por eles, esperando ver um cadáver, mas acaba diante de tantos…

E apenas um sendo enterrado.

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pipoca

20 nov

Local: Quinta da Boa Vista

Cheiro no ar: pipoca caramelada com canela

Sentado, o homem a espera. No colo, seu antigo livro de infância: “Le Petit Prince”. O mesmo que ela hoje lê e relê, exibindo biquinhos de francesa. Ele adora corrigir a pronúncia dela. Pensando nisso, quase deixa uma lágrima escapar. Começa então a bater os joelhos, ela está voltando, trotando e comendo. Não o oferece nada, a guloseima é só dela. O homem vê o vento esticar o vestido sobre os peitinhos que ela logo logo terá e por fim decide:

“Vou devolver você a sua avó…”

O pacote de pipoca esparrama no chão, entre os sapatinhos de verniz.

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o relógio

20 nov

Local: Casa Cavé

Cheiro no ar: chá preto

Ele tem um relógio suíço.  Todos os dias, às seis da manhã, antes do café, ele o esfrega com uma flanela felpuda e depois corrige os segundinhos a menos. Só então dá início as suas tarefas matutinas.

Às dez e dezoito ele passa a mão no telefone. Ela sorri ao ouvir a voz dele.

“A menos que um bonde passe em cima de mim, estarei lá ao meio-dia.”

Ela está agora a sua espera, uma dezena de dedos tamborilantes sobre a mesa, um par de olhos embaçados. Um lágrima escorre.

O relógio de parede marca duas horas.

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